• Clarissa E. Desterro

ANASTÁSIA - Uma crônica sobre o centenário da execução dos Romanov

Oi gente, tudo bem? O dia de hoje é um dia muito especial para mim. Um dia marcado por um tragédia indescritível. O dia de uma execução criminosa. O dia do assassinato da família Romanov. As duas da manhã do dia 17 de julho de 1918, o crime era cometido. Hoje, em 17 de julho de 2018, nós vemos seu centenário. Não vou me alongar muito sobre tudo isso, vem ai outro post falando melhor sobre o assunto mais tarde. Essa crônica foi escrita com base no mito, já refutado, de que Anastásia, a mais jovem das filhas do imperador, teria sobrevivido ao massacre. Espero que gostem, pois foi um texto bastante dramático e difícil, emocional, de escrever.



Anastásia Nikolaevna Romanov, a mais jovem das quatro grã-duquesas russas, filhas do czar Nicolau II. Palácio de Peterhof, 18 de junho de 1901 - Casa Ipatiev (Casa do Propósito Especial), Yekaterimburgo, 17 de julho de 1918. (17 anos)


ANASTÁSIA

Eu nunca entendi de fato a condição humana. Nem a capacidade humana de pensar. Talvez, por que eu fosse jovem demais para compreender. Mas talvez, por que humanos são, na verdade, incompreensíveis. Primeiro, eles amavam a mim, e a minha família. Então, eles nos odiavam, e mataram a todos nós. Depois, nos fizeram santos. É impressionante como a humanidade muda de opinião tão rápido. E é impressionante como eles conseguem tirar vidas por conta disso, sem sequer perceber. E depois tentam se redimir, fazendo dezenas de homenagens póstumas. Mas de nada adianta. Eles mataram. Mataram crianças inocentes, mataram pessoas inocentes. E nem a maior e melhor homenagem pode restaurar as vidas daqueles que injustamente se foram. Nem isso pode apagar a dor e o sofrimento daquelas vítimas, que foram vítimas de muitas coisas, mas principalmente da incapacidade humana de ser humanos. E por causa dessa incapacidade, meu pai ficou para sempre marcado na história como um tirano sanguinário e autoritário. Por essa falsa propaganda, minha mãe estará para sempre escrita em todos os livros como uma louca. E por essa falta de sentimento, por essa falta de razão, eu, minhas irmãs e meu pequeno irmão seremos para sempre vistos como meros peões sem personalidades e desejos individuais em um jogo de poder definido pelos erros de meu pai.

Por causa desse humanos que hoje me tratam como santa, eu fiquei presa por dezesseis longos meses em duas casas lúgubres, ao lado de minha família. Por essas pessoas, que plantaram lírios no lugar onde fomos enterrados, descemos 23 degraus, um para cada ano de reinado de meu pai, para um porão escuro e sem janelas. Por essas pessoas que construíram igrejas em nossos nomes, eu ouvi um homem que mais parecia um demônio encarnado tirar de seu casaco um papel, e ler em voz alta que “atendendo à vontade da Revolução” estávamos condenados a morte, sem julgamento, pois meu pai, ou, como eles preferiram chamar, “o carrasco coroado talvez escape da corte do povo”. Por essas pessoas que hoje declaram sua compaixão, eu vi meu pai ser baleado por uma pistola Colt – e onze outras mais – até finalmente cair no chão, inerte e frio, jorrando sangue. Eu vi meu irmão, que não podia se levantar por sua condição frágil, ser coberto por esse sangue a medida que as balas voavam. Eu vi minha mãe e minha irmã mais velha fazerem sinais da cruz desajeitados enquanto balas tentavam penetrar seus torços costurados em joias, muitas vezes em vão. Eu vi os empregados tão leais, que me conheciam a vida inteira, caírem no chão, uns por cima dos outros. Eu vi minha mãe levar um tiro na cabeça e cair por cima do corpo de meu pai. Por essas pessoas, eu mesma gritei, junto com minhas três irmãs, enquanto balas e mais balas voavam. Eu vi meu irmão ser baleado com um pente inteiro, até que um golpe de misericórdia fosse desfechado em sua frágil cabeça. Eu vi minhas irmãs levarem golpes de baionetas até que nenhuma delas pudesse mais gritar ou se mover. Eu mesma senti esses golpes tomando meu corpo diversas vezes. Eu mesma cai no chão, em desespero.

Por essas pessoas, eu tive meu corpo queimado, e meus ossos derretidos em ácido. Por essas mesmas pessoas, eu fui enterrada em uma cova anônima no meio de uma mina abandonada, com minha família e os poucos leais que estavam conosco. Por essas pessoas, eu tive como lugar de descanso uma sepultura anônima, como a de um criminoso: sem lápide ou cruz. E por essas pessoas, eu fiquei lá por sessenta anos. Até que essas mesmas pessoas se dessem conta de seus erros. Essas mesmas pessoas que tão cruéis tinham sido tornaram-nos heróis, mártires da sagrada paixão. E essas pessoas criaram uma história fantástica: a história de que eu sobrevivi.

Essa foi a pior mentira que já contaram. Pior do que todas as que eu ouvi antes. Dizer que sobrevivi é uma forma de negar o que fizeram. Ao menos comigo, a mulher caçula. Dizer que eu sobrevivi é como tentar compensar a morte de dez com a vida de um. “Eles foram assassinados, mas uma sobreviveu...”. Dizer que eu vivi também é ignorar o que eu passei. Eu quero que saibam que eu ouvi os gritos. Quero que saibam que eu vi os corpos. Quero que saibam que eu senti o sangue respingar em meu corpo. Quero que saibam que eu gritei. Quero que saibam que eu me desesperei. Quero que saibam que eu fui baleada e golpeada a baionetas até o fim, e chamada de bruxa pela demora em sucumbir aos ataques. Quero que saibam que vi toda minha família morrer bem em frente aos meu olhos. E quero que saibam que eu estava com eles. Eu morri ali. Com eles. Anônima e sem ajuda, em um porão lúgubre e escuro numa madrugada de verão. Fui enterrada com eles, exumada com eles e enterrada ao lado deles mais uma vez. Em vida, éramos uma família unida. Na morte, não poderia ser diferente.

Portanto, chega. Chega de ver em mim uma sobrevivente. Chega de ver em mim um milagre. Chega de ver em mim esperança. Chega de ver em mim uma borracha para apagar as mortes dos que morreram naquele porão. Chega. Tornem-me um símbolo pela verdade, e não pela lenda. Tornem-me um símbolo daquilo que eu de fato represento. Vejam em mim os rostos deles. Tornem-me um espelho. Ouçam seus gritos, vejam seu sangue, sintam seu medo, seu sofrimento, seu desespero. Vamos voltar ao porão de Ekaterimburgo, viver tudo de novo, se for preciso. Mas não permitam que eu me torne algo que não sou. Eu sou uma vítima, não um milagre. Se devo ser um rosto conhecido, que eu seja o rosto dos milhões sem face ou voz que sucumbiram na revolução que matou minha família. Que eu seja o rosto das onze pessoas que morreram naquele porão, na noite de 17 de julho de 1918. Permitam que eu seja esse símbolo.

Olá. Meu nome é Anastásia Nikolaévna Romanov. Eu sou a última Grã-Duquesa da Rússia Imperial. Eu sou filha de Nicolau II, meu pai. E eu tinha apenas 17 anos na noite em que fui assassinada.

E que viva a vontade da Revolução.

Adeus. Não se esqueça de mim.



"Adeus, não se esqueça de mim" - Anastásia Nikolaevna Romanov, 1918.

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