• Clarissa E. Desterro

INVERNO RUSSO - CONTOS CATARINOS

Fiquei muito receosa de publicar essa crônica, a princípio. A ideia para ela surgiu quando, passando pelas notas do meu celular, encontrei anotada a frase "Os invernos são frios, mas os Romanov triunfarão". No mesmo dia, encontrei uma foto da minha festa de quinze anos, onde podemos ver a lareira e o quadro da familia Romanov. Juntei tudo, e deu nesse conto que, apesar de bastante curto, me agradou bastante. Meu medo era que as pessoas não entendessem o propósito, a lógica de tudo isso, visto se tratar de uma situação irreal envolvendo personagens fictícios e verdadeiros. Explicarei, portanto, o que acontece. Como muitos sabem, sou uma aficcionada na família imperial russa, os Romanov. Só não gosto muito de Alexandra, a imperatriz que considero grandemente culpada pela queda do regime. Assim, acabei criando, quase que sem querer, um mundo paralelo na minha cabeça, onde a revolção não aconteceu, Alexei não tinha hemofilia, e Nicolau não era casado com Alexandra, e sim com uma imperatriz mais adequada. Mas eu também não sabia quem, e, assim, com minha mente de escritora, acabei criando a minha própria: Catarina, uma personagem inventada por mim para ser a imperatriz nessa Rússia nova, onde a história se passou de maneira diferente.Tomei gosto por criar pequenas passagens com ela, usando meus conhecimentos de história russa e costumes da corte Romanov no século XIX para mostrar para vocês um pouquinho desse meu universo com a hisória alterada, onde a Russia seguiu por um caminho totalmente diferente, graças, em grande parte, a Kitty (apelido para Catarina). . Espero que tenham conseguido entender um pouquinho do que eu pretendi ao escrever sobre Catarina, por que mais coisas dela estão vindo para o blog no futuro, e eu espero torná-la uma personagem recorrente por aqui. É uma maneira de expressar um pouco do meu conhecimento sobre a família Romanov e o meu desejo de uma história diferente para eles, com essa minha personagem fictícia que interage com aquelas pessoas reais para criar uma nova história e um mundo melhor - quem sabe até mesmo evitar a primeira guerra mundial! Quem sabe o que poderia ter sido feito... Vocês vão ver muito a Cat por aqui, então podem se acostumar! Hahaha.







INVERNO RUSSO

São Petersburgo, Palácio de Inverno. 1914 (se tudo fosse diferente...)

O inverno russo não era assim tão desagradável na capital. Ao menos, se você gostasse de festas e imagens de tirar o fôlego, dignas de Tolstói - um homem que Catarina conhecia e não suportava. Bailes, óperas e balés todas as noites, nos melhores palácios e teatros da cidade, marcavam a temporada social do inverno petersburguense. Belas mulheres reluzindo em diamantes perfeitos e gigantescos, enrolando-se em peles mais brancas que a neve que cortavam com seus trenós, vermelhos como os uniformes dos nobres oficiais que as acompanhavam. Esses casais saltavam de festa em festa, teatro em teatro, exibindo suas joias, roupas, títulos e medalhas ao som de toda valsa, mazurka, quadrilha e polonaise que se possa imaginar. Catarina gostava muito dessas cenas idílicas, e ainda mais da posição que ocupava nelas; ela era a águia imperial, sobrevoando o estrelado céu noturno que era a nobreza russa. Ah, eles podiam ser muita coisa, mas certamente sabiam se divertir. Ela própria estaria no meio dessa diversão essa noite, mas não estava se sentindo bem. Uma terrível dor de cabeça lhe acometera, e ela sentia que iria explodir se deixasse sua criada prender-lhe as mechas castanhas para cima, como era devido. Só suportaria o peso de uma tiara se sua vida dependesse disso - e felizmente não dependia. Esse tinha sido o principal fator para, excepcionalmente, não acompanhar Nicolau e as crianças - apenas as mais velhas, é lógico - ao balé naquela noite.

Olhou pela janela: já passava da meia noite, a muito. A neve caia pesada, branca e imaculada do lado de fora, cortando o céu noturno com fortes rajadas de vento gélido. Do lado de dentro, sua sala estava quente e confortável. O boudoir da imperatriz era famoso em toda a Rússia, mais por sua exclusividade que por outra coisa. Só suas damas, Nicolau e as crianças tinham acessos a ele, e não sem um convite. Os boatos tinham criado um cômodo extraordinário e grandioso, mas a realidade era um tanto mais decepcionante: nem ela nem Nicky eram dados a extravagâncias a la Versalhes, como o resto da Europa gostava de imaginar. O boudoir era sóbrio, elegante e confortável, ainda que logicamente feminino. As paredes eram revestidas de um tom levemente azulado de cinza, que harmonizava perfeitamente com a mobília clara e relativamente simples vinda da Inglaterra. Duas altas janelas davam para os jardins, cobertas por opalescentes cortinas de seda drapejada, e perto delas repousava um conjunto de vasos de flores, na ocasião hortênsias recém-colhidas, muito perfumadas e perfeitamente azuis. Outras porcelanas e vasos de Sèvres cheios de flores e folhas se espalhavam por todo o ambiente em porções discretas. Um divã ocupava posição privilegiada, coberto por mantas brancas, peles e almofadas de renda, dividindo espaço com outras poltronas e mesinhas de apoio, uma biblioteca pessoal, um piano armário branco e uma pequena escrivaninha, tudo interpolado por fotos de família, velas e ícones religiosos. Em algum lugar, havia um telefone, que ela mandara instalar a poucos anos. O destaque ficava por conta da enorme lareira, naquela noite acesa. O console levava um pequeno candelabro de cristal e dois ou três vasinhos de prata cheios de hortênsias. Acima de tudo isso, no ponto focal das atenções, estava um enorme quadro de moldura acobreada. Pintado no ano anterior pelo tricentenário da dinastia Romanov, a pintura retratava com perfeição a atual família imperial: Nicky estava no centro, encantador em seu uniforme vermelho, com ela própria do lado, em um vestido claro e solto, como estava na moda, usando muitas pérolas e uma coroinhas no topo da cabeça. Estavam cercados pelas crianças, todas perfeitamente alinhadas em seus vestidos combinando e uniformes de marinheiros. Ela adorava aquele retrato.

Trezentos anos, Catarina refletiu consigo mesma. A data ecoava em sua cabeça sem parar. Uma dinastia que já governava soberana a trezentos anos, num país tão vasto quanto a Rússia. E ela era parte dela. Tinha se casado com ela a quase vinte anos, no mesmo dia que se casara com o jovem czar. Desde então, tinha se tornado uma Romanov exemplar, de fazer inveja a qualquer grã-duquesa que partilhasse do sangue não russo dos czares russos. Ela nascera para a Dinastia Romanov, e sua imagem carismática, delicada e racional a elevada a outro nível da opinião pública. Os opositores do regime a odiavam por isso - ela tornara praticamente impossível a revolução que a algum tempo estivera tão próxima.

A quase trinta e cinco anos, o avô de seu marido, o reformista Alexandre II, fora assassinado a sangue frio pelos terroristas niilistas ou o que quer que fossem. A morte fora horrível, dolorosa e sangrenta; Alexandre teve as pernas e o abdômen destroçados por uma bomba jogada sob seus pés. A esposa do imperador, princesa Katia Dolguruskaya, gritara, chorara e se jogara no chão em desespero, sendo observada por um chocado Nicolau de doze anos, que jamais ousou esquecer tal cena. Tragédias marcaram os reinados de muitos czares Romanov. Revoltas, agitações, assassinatos. Pedro, o Grande, fora traumatizado quando pequeno por grotescas cenas de assassinatos realizados por mosqueteiros. Ele também fora traído por seu próprio filho, Alexei, a quem eventualmente matou. Pedro III fora deposto e assassinado a mando da própria mulher. Paulo fora morto com violência espetacular, Alexandre I viu a invasão da Rússia por Napoleão e queimou a gloriosa Moscou ao chão para não rende-la ao inimigo. Nicolau I teve de lidar com os dezembristas, e Alexandre II sofreu tantos atentados quanto poderia ter sofrido. Alexandre III e a família - incluindo o pequeno Nicolau - quase morreram em um acidente terrível no trem imperial. O próprio Nicky sofrera muito na vida, com a precoce perda de seu pai e de seu irmão favorito, Jorge, além de um atentado que quase lhe custara a cabeça numa viagem ao Japão, uma febre tifoide que por muito pouco não o matara no início do século e sua própria coroação para imperador - algo que ele nunca quisera. Sim, a dinastia Romanov era um dourado cálice de veneno e lágrimas, de certa forma.

Mas, ainda assim, ali estava ela, testemunhando os trezentos anos de uma das mais poderosas dinastias da Europa. Pedro, o Grande, construira a magnífica Petersburgo. Catarina, a Grande, conquistara a Crimeia. Alexandre I expurgara Napoleão do solo russo. Alexandre II libertara os servos, e seu filho reerguera a economia arrasada e praticamente feudal do país. Aquele principado que trezentos anos atrás fora entregue nas mãos do primeiro czar Romanov, arrasado pela fome e pela guerra, hoje representava um sexto do globo. A pequena Moscóvia crescera para se tornar o colossal Império Russo! Ela e Nicolau guiavam os eslavos com força e graça, seguros no trono pelo apoio, amor e respeito do povo russo, levando a Dinastia para o novo século com boas perspectivas para o futuro. O império crescia e se industrializava, e as adoradas figuras de Nicolau e Catarina mantinham o trono fora da sombra da Revolução. A águia bicéfala alçara voo trezentos anos atrás, e até hoje não se vira obrigada a pousar.

-A senhora ainda precisará de algo, Majestade? - Uma voz vinda da porta arrancou-lhe de suas reflexões. Catarina virou-se devagar para encontrar o familiar rosto de Maria Geringer, a principal Dama de companhia de seu séquito

-Creio que não precisarei de nada, Maria, pode se recolher. Obrigada.

-Madame - a mulher assentiu com uma curvatura leve, afastando-se em direção à porta.

A czarina olhou para a janela mais uma vez: a nevasca tinha ficado mais forte, e as janelas estavam congelando do lado de fora.

-Na verdade, Maria... - a imperatriz chamou, detendo a Dama de companhia subitamente -Sim, madame?

-Há algo que gostaria de perguntar... A mulher assentiu, esperando pela pergunta -Diga-me, Maria.... o que acha do inverno russo?

Maria deteve-se um instante, surpresa. Não era o tipo de pergunta que sua senhora costumava fazer. Parou para pensar por um momento, até, por fim, responder:

-Bem, Madame... a verdade é que não consigo imaginar-nos sem ele, ainda que às vezes seja excessivamente frio.

Maria Geringer se surpreendeu mais uma vez ao olhar para o rosto da imperatriz. Catarina tinha uma expressão ausente, pensativa, quase mecânica. E, ainda assim, um esboço de sorriso ameaçava figurar em seu rosto a qualquer momento.

-Sim... - ela concordou, com a voz vaga - Sim... sim, é exatamente como penso.

Elevou o olhar para a magnífica pintura mais uma vez. Nicolau e as crianças a encaravam, sorrindo.

-Exatamente - Catarina repetiu, dando ênfase a cada sílaba.

O inverno é frio, mas os Romanov triunfarão.


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